Registro de construção · 2019 — 2026
Porsche 911 Carrera RSR 3.0 · 1975
Homenagem a Bob Wollek e à era dourada dos privateers Porsche
Com autorização da Kremer Racing e da Vaillant
Abertura
Este projeto não nasceu de uma planilha. Nasceu de uma imagem fixa na memória de quem acompanhou o automobilismo europeu dos anos 1970: um 911 de para-lamas alargados, verde e branco, com Bob Wollek ao volante e o nome de um fabricante alemão de caldeiras na lateral.
A Kremer Racing nunca foi uma equipe de fábrica. Foi uma oficina de Colônia que decidiu que sabia preparar um Porsche melhor do que a própria Porsche. Em 1979 provou isso vencendo as 24 Horas de Le Mans com um 935 K3.
As páginas seguintes registram a reconstrução desse universo sobre um 911 SC de 1979: seis anos de trabalho, sem nenhum exemplar físico no país para servir de modelo, guiados apenas por fotografias de época e bibliografia.
Em uma frase
Tributo de construção integral ao Porsche 911 Carrera RSR 3.0 da Kremer Racing, nas cores Vaillant, executado sobre um 911 SC de 1979, com boxer aspirado de 3.186 cc e registro fotográfico completo de todas as etapas.
Construção Kalu Import e Oficina RSR, de novembro de 2019 a junho de 2026
Endosso Kremer Racing, Colônia
3.186cc
Cilindrada
233,33wHP
Na roda, SAE J1349
1.081kg
Com meio tanque
6anos
De construção
Perfil completo: para-lamas de 11 polegadas na frente, laterais de 14 atrás
O projeto
Um tributo completo ao Porsche 911 Carrera RSR 3.0 preparado pela Kremer Racing na temporada de 1975, apresentado nas cores Vaillant da equipe e dedicado a Bob Wollek, o piloto que definiu aquela fase da oficina de Colônia.
A construção partiu de um Porsche 911 SC de 1979, chassi 91A0134572, e reuniu 152 componentes especificados um a um, de fornecedores como GT Racing, Elephant Racing, LN Engineering, Pankl, Wevo, M&K e Rasant. Foram mais de seis anos de trabalho: os cilindros LN Nickies, por exemplo, foram aguardados por onze meses em vez de substituídos por equivalentes.
O resultado não é uma réplica de museu. É uma máquina calibrada para eventos de historic racing, track days e exibições de alto nível, com a dirigibilidade e a sonoridade que só um boxer de seis cilindros aspirado e refrigerado a ar entrega.
A história · Kremer Racing
A Kremer Racing foi fundada em 1962 em Colônia pelos irmãos Erwin e Manfred Kremer. Ao longo da década seguinte transformou-se na mais respeitada equipe privada de Porsche do mundo, reconhecida pela qualidade de preparação e, sobretudo, por um hábito raro entre clientes: desenvolver suas próprias evoluções em vez de esperar pelas peças de Weissach.
Os carros preparados pela equipe recebiam a designação interna RSK, o K de Kremer. Em 1975, com a chegada dos novos 934 e 935 atrasada, o Carrera RSR 3.0 ganhou uma segunda temporada no topo da categoria. A Kremer alinhou três RSRs naquele ano, construídos a partir de monoblocos nus por equipes clientes credenciadas pela Porsche.
A ousadia tinha respaldo. Quando o regulamento do Grupo 5 abriu espaço para desenvolvimento próprio, a Kremer respondeu com a série 935 K1, K2 e K3. Diante da falta de um intercooler adequado, o piloto Hans Heyer simplesmente construiu um. Em 1979 o 935 K3 venceu as 24 Horas de Le Mans com Klaus Ludwig e os irmãos Whittington, a primeira vitória absoluta de um carro de motor traseiro na prova.
A história · Bob Wollek
Estrasburgo, 4 de novembro de 1943 — Sebring, 16 de março de 2001
Antes do automobilismo veio a neve. Wollek integrou a equipe francesa de esqui e conquistou medalhas de ouro nos Jogos Mundiais Universitários de Inverno antes de um acidente durante a preparação olímpica encerrar aquela carreira, em 1968.
Passou pela Fórmula France e pela Fórmula 2, inclusive numa equipe dirigida por um jovem Ron Dennis, antes de concluir que seu lugar era no endurance. A partir de 1974 tornou-se um especialista Porsche, e em 1975 dividiu a temporada entre a Kremer Racing no campeonato alemão e a Ecurie Buchet no Mundial de Marcas.
O currículo é brutal: quatro vitórias absolutas nas 24 Horas de Daytona, vitória em Sebring, títulos alemães e europeus, múltiplas conquistas da Porsche Cup. Ciclista obsessivo, chegava a pedalar de Estrasburgo até Le Mans, cerca de 600 quilômetros.
Morreu aos 57 anos, atropelado enquanto pedalava às vésperas das 12 Horas de Sebring de 2001. Corria em alto nível até o fim.
4
Daytona 24h
30
Largadas
6
Pódios
0
Vitórias
Largadas, pódios e vitórias referem-se às 24 Horas de Le Mans. Apelidado de Brilliant Bob, era conhecido pelo temperamento reservado e por uma consistência que atravessou cinco décadas de regulamentos.
A história · La Sarthe
Entre 1968 e 2000, Bob Wollek largou trinta vezes nas 24 Horas de Le Mans. Apenas Henri Pescarolo acumulou mais participações. Subiu ao pódio absoluto seis vezes, incluindo quatro segundos lugares, e nunca venceu.
Em 1975, o ano do Carrera RSR homenageado por este projeto, Wollek correu em La Sarthe com o RSR número 78 da Ecurie Buchet ao lado de Cyril Grandet. O carro foi desclassificado por reabastecimento de óleo fora do momento permitido.
O ponto mais cruel veio em 1998: segundo lugar, aos 54 anos, atrás dos próprios companheiros de Porsche. Em 2000, na última participação, perdeu uma vitória de classe na vistoria técnica.
É por isso que homenagear Wollek não é homenagear um vencedor de Le Mans. É homenagear algo mais raro: um piloto que voltou trinta vezes.
Pódios absolutos em Le Mans
Além de quatro vitórias de classe e uma pole position na prova.
A história · A livery
A Vaillant é uma fabricante alemã de sistemas de aquecimento e caldeiras. Nada mais distante do glamour do automobilismo, e talvez por isso a associação com a Kremer Racing tenha se tornado tão memorável: o verde corporativo sobre a carroceria de um Porsche de competição criou uma das identidades visuais mais reconhecíveis do esporte europeu dos anos 1970.
O ponto alto veio em 1977, quando Wollek terminou vice-campeão do DRM atrás de Rolf Stommelen e conquistou a Porsche Cup ao volante do 935 K2 Vaillant. A combinação Kremer, Vaillant e Wollek atravessou gerações de máquinas, do Carrera RSR aspirado ao 934 e ao 935 turboalimentado.
As cinco cores da livery
Aplicadas em tinta, não em adesivo. O branco da carroceria de época dá lugar ao verde corporativo da marca.
A pesquisa. Sem exemplar físico no país, a reconstrução da livery partiu de acervos digitais e de bibliografia especializada, entre eles Porsche 911 Story e Porsche 911 Performance Handbook 1965-1989, usados para conferir proporções, tipografia e posicionamento.
A execução. A pintura foi feita na Kalu Import com sistema PPG. As faixas coloridas foram pintadas à mão, uma a uma, com mascaramento manual entre demãos. Os letreiros e patrocinadores foram adesivados pela L.A Custom e todo o conjunto recebeu camadas de verniz por cima, unificando tinta e adesivo sob o mesmo acabamento.
A história · 1975
Para 1975 a Porsche planejava introduzir o 934 do Grupo 4 e o 935 do Grupo 5, ambos derivados do 930 turbo. O atraso dos dois projetos deu ao 911 Carrera RSR 3.0 uma segunda temporada na primeira linha, depois da estreia em 1974.
Pouco menos de sessenta exemplares do RSR 3.0 foram produzidos entre 1974 e 1975 e vendidos a equipes privadas. Traziam o motor tipo 911/75, comandos de válvulas de alto levantamento, injeção Bosch de gaveta e ignição de vela dupla, com potência na faixa dos 330 cv. Nas mãos da Kremer, a cifra chegava a cerca de 335 cv, com câmbio de cinco marchas e rodas Fuchs de 10x15 na frente e 14x15 atrás.
Foi o último grande capítulo do 911 aspirado de competição antes da era turbo. Um carro leve, direto, sem eletrônica entre o pé direito e o eixo traseiro. E é exatamente essa a experiência que este projeto se propõe a reconstruir.
O RSR 3.0 de fábrica em números
A livery reconstruída faixa a faixa, pintada e não adesivada
Autorizações e proveniência
História verificável exige clareza. Por isso este registro é explícito quanto à natureza do carro.
Este é um tributo. Não se trata de um dos Carrera RSR 3.0 originais construídos entre 1974 e 1975, nem de um carro com histórico de competição pela Kremer Racing. Não há vínculo de chassi, titularidade ou registro esportivo com os exemplares históricos citados nestas páginas.
A referência é a livery Vaillant da Kremer Racing. O carro celebra as cores que a equipe de Colônia levou às pistas ao longo da segunda metade dos anos 1970, sobre a carroceria do Carrera RSR 3.0, e a figura de Bob Wollek, piloto da Kremer a partir de 1975. Não se trata da reprodução de um carro específico nem de uma corrida específica.
O projeto tem autorização das duas partes. A Kremer Racing autorizou a construção do tributo em janeiro de 2024, por mensagem direta ao perfil @Ninelevenbr, e acompanhou a obra interagindo publicamente com as publicações. A Vaillant autorizou o uso da marca.
Autorizações
Filosofia de construção
Não existe exemplar físico deste carro no Brasil. Proporções, alargamentos, aerofólio, rodagem e grafismo foram definidos exclusivamente a partir de fotografias de época e bibliografia especializada, conferidos imagem a imagem ao longo da construção.
Alguns sistemas foram modernizados: injeção eletrônica e corpos de borboleta individuais. As origens clássicas ficaram onde importam à leitura do conjunto, como o distribuidor único com doze cabos de vela do twin plug. Motor confiável e atualizado, sem perder o visual e as referências históricas.
Gaiola integral soldada à estrutura ainda crua, bancos Sparco REV II e cintos Sabelt de três polegadas com homologação FIA, corte geral com acionamento interno e externo.
Cada etapa registrada em fotografia datada. Mais de 1.300 fotos e vídeos documentam a construção do metal nu ao carro rodando.
O processo · Restauração
A carroceria foi levada ao metal nu antes de qualquer decisão estética. A gaiola foi soldada à estrutura ainda crua; painel, assoalho, caixas de roda e longarinas foram tratados e só então revestidos com primer, com os pontos de solda originais à vista e sem massa escondendo geometria. É a etapa que ninguém vê no carro pronto e a primeira que alguém experiente pergunta. Executada na Kalu Import.
O processo · Pintura
A livery Vaillant não é adesivada sobre a carroceria: as faixas são pintadas, uma a uma, com mascaramento manual entre demãos. Só os letreiros e os patrocinadores são adesivo recortado, aplicados pela L.A Custom. O verniz de acabamento final foi aplicado sobre as faixas pintadas e os adesivos, criando um efeito de pintura excepcional.
O trabalho foi executado em cabine, com sistema de tintas PPG, sobre a carroceria totalmente nua e com a gaiola já instalada e pintada na cor do conjunto. Executada na Kalu Import.
O processo · Motor
O motor foi montado na Oficina RSR, em São Paulo, por Maurício Machado, referência em mecânica de Porsche clássico das décadas de 1960, 1970, 1980 e 1990. Maurício passou por concessionária Porsche em São Paulo e trabalhou como mecânico na Porsche Cup Brasil, repertório que se reflete no critério técnico de cada etapa da montagem.
O conjunto rotativo recebeu tratamento à parte: as bielas de titânio Pankl, de Porsche 996 GT3 Cup, foram montadas ao virabrequim com apoio do Dener Pires, na oficina da Porsche Cup Brasil, com ferramental e especificações próprias. Cada biela foi pesada individualmente, na casa dos 422 gramas.
O processo · Câmbio
A caixa foi aberta por completo e remontada com kit de retífica, autoblocante e coroa e pinhão 8/31 novos. O contato de dentes foi conferido com composto marcador antes do fechamento, procedimento que define a durabilidade do conjunto e que raramente aparece documentado. A montagem recebeu tampa lateral e trambulador Wevo.
O processo · Rodagem
Toda a rodagem foi montada sobre a carroceria já pintada, com componentes Elephant Racing e freios do 930 Turbo. A torre triangulada 935 no vão dianteiro é fixada por pinos de engate rápido, o que permite remover o travamento sem ferramenta. Atrás, spring plates reguláveis QuickChange dão ajuste fino de altura e pré-carga sem desmontar o conjunto.
O processo · Dinamômetro
O acerto fino da injeção eletrônica foi feito por Marco Liasch em dinamômetro inercial de rolo Servitec. O 3.2 Short Stroke registrou 233,33 wHP na roda e 26,82 kgf·m de torque, corrigidos pela norma SAE J1349 (fator 1,08) nas condições do ensaio: 92,6 kPa, 17,1 °C e 75,8% de umidade. Na roda, portanto algo próximo de 280 hp no motor, descontadas as perdas de transmissão.
Para um 3.2 de curso curto, aspirado e refrigerado a ar, é um número expressivo. A curva de potência ainda sobe quando o limitador entra aos 7.200 rpm: o corte é eletrônico, não mecânico.
233,33wHP
Na roda · SAE J1349
26,82kgf·m
Torque a 5.750 rpm
7.200rpm
Corte eletrônico
O carro concluído, em outubro de 2024
Ficha técnica · I
Ficha técnica · II
Ficha técnica · III
Ficha técnica · IV
Ficha técnica · V
Galeria · Exterior
Sessão fotográfica do carro concluído.
Galeria · Detalhes e habitáculo
Acabamentos, aberturas e o interior sobre a gaiola pintada na cor da carroceria.
Galeria · Motor e rodagem
O boxer de 3.186 cc, o sistema de admissão e os componentes de suspensão e freio.
O registro
Componentes
Relação dos principais componentes por grupo e fabricante. A lista completa do projeto reúne mais de 150 itens com mais de 270 peças de 46 fabricantes.
Motor · bloco e conjunto rotativo
Cabeçotes e válvulas
Lubrificação e arrefecimento
Alimentação e gerenciamento
Ignição
Escapamento e elétrica
Transmissão
Freios e rodagem
Suspensão
Direção
Carroceria
Habitáculo
Créditos
Tributo Kremer Vaillant
911 Carrera RSR 3.0 · 1975
Este documento registra a construção de um tributo. O veículo não é um exemplar histórico original e não possui vínculo de chassi ou registro esportivo com os carros citados. A construção foi autorizada pela Kremer Racing, por manifestação direta da equipe, e o uso da marca Vaillant foi autorizado pelo detentor dos direitos. Demais marcas e nomes citados pertencem a seus respectivos titulares e são referidos em contexto histórico. Este projeto não é patrocinado nem endossado pela Dr. Ing. h.c. F. Porsche AG.
Daniel Galante · @ninelevenbr